O Mundial do ativismo para nos sentirmos bem (Por Carmo Afonso)

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O capitão da seleção inglesa deveria ter levado para o jogo com o Irã uma braçadeira com as cores da bandeira LGBT. Sucede que a FIFA determinou que cada jogador que usasse essa braçadeira, conhecida como “One Love”, levaria cartão amarelo, o que fez com que a equipa recuasse na intenção de se manifestar daquela forma contra a proibição da homossexualidade no Qatar. Os jogadores e a equipe técnica acabaram por simplesmente ajoelhar-se antes do início do jogo, uma afirmação contra a violação dos direitos humanos.

O selecionador da equipe inglesa disse, em entrevista sobre essa iniciativa, que é bom dar o exemplo aos jovens, em particular, para que vejam como a inclusão é importante. A seleção inglesa não é caso único: as várias equipes e as várias claques têm vindo a ponderar manifestações de oposição ao regime político do Qatar, à violação dos direitos humanos, à grave situação dos trabalhadores migrantes e aos milhares de mortos na construção dos novos estádios de futebol. Acontece que apenas se concretizam as iniciativas que não acarretam consequências desportivas, legais ou monetárias, de maior.

Por onde começar?

Pode ser pelos jovens. Se o nosso objetivo é dar-lhes um bom exemplo, estamos a alucinar. A situação política e social no Qatar é gravíssima, o processo que levou à escolha do Qatar para a realização do Mundial é uma história nebulosa que envolve favorecimentos e corrupção. Mais grave ainda, o tratamento dado aos trabalhadores migrantes que construíram aqueles estádios é desumano. Parece que tudo isto é ponto assente. Mas ainda não é desta que as pessoas serão consequentes. E claro que isto não é só sobre federações desportivas, seleções e governantes. É também sobre nós: o Mundial arrancou e os gols, as exibições, a festa e a adrenalina falam mais alto do que o repúdio pela violação dos direitos humanos. Lá se vai o exemplo para os jovens.

É particularmente embaraçoso o regozijo pelo carnaval de pequenos gestos contra o regime do Qatar ou pela defesa da inclusão e dos direitos humanos, que não têm relevância absolutamente nenhuma, enquanto o Mundial decorre na maior normalidade. No Inglaterra-Irã foi, afinal, uma jornalista, e ex-atleta da seleção inglesa feminina, Alex Scott, ao serviço da BBC Sports, que usou a braçadeira com as cores LGBT. A jornalista usou a braçadeira, a equipe inglesa ajoelhou-se e milhares de adeptos por todo o mundo aplaudiram. Siga.

Dentro deste espírito do ativismo para nos sentirmos bem, Marcelo Rebelo de Sousa [presidente de Portugal], que não quis deixar de comparecer na competição, já anunciou que amanhã, quinta-feira, estará a falar de direitos humanos no Qatar. O mesmo Marcelo que disse que “o Qatar não respeita os direitos humanos. Mas, enfim, esqueçamos isto”, propõe-se agora ir ao Qatar dizer o que “pensa sobre a situação política lá”. Que orgulho.

Afigura-se ético criticar e mostrar indignação pelo comportamento dos outros e até atribuir-lhes responsabilidades. Mas a verdade é que existe aqui um processo coletivo em que cada um faz a sua parte e atua à sua maneira para possibilitar que tudo se passe como previsto

E não esquecer o presidente da FIFA, que afirmou sentir-se qatari, árabe, africano, gay, deficiente e trabalhador migrante e tudo ao mesmo tempo. Reparem que não deve ser fácil para quem está no Qatar.

A verdade é que até os pequenos gestos de rebeldia e de contestação inconsequente têm um papel e permitem a realização e o prosseguimento deste Mundial de futebol. Aplaudir o gesto da seleção inglesa ou o da jornalista que usou a braçadeira, criticar o presidente da FIFA ou mesmo usar uma T-shirt da Amnistia Internacional são as válvulas de segurança, ou dispositivos de alívio da pressão, que nos permitem continuar e conviver com o inaceitável. Ficamos com a sensação de que cumprimos o nosso dever e adiamos, ou evitamos, o momento em que atingimos o limite.

Na cena do apedrejamento em A Vida de Brian, dos Monty Python, havia bancas que vendiam pedras a caminho do lugar da execução. Também a organização do Mundial deveria ter as suas próprias bancas, à volta dos estádios, com souvenirs alusivos aos direitos humanos e à inclusão. São acessórios necessários para fazer a festa.

(Transcrito de o jornal PÚBLICO)

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